Sua empresa não tem um problema de treinamento. Tem um problema de escuta
Existe um hábito bastante elegante nas organizações: quando alguma coisa não funciona, cria-se um treinamento. A equipe não se comunica? Curso de comunicação. O líder não consegue conduzir as pessoas? Formação de liderança. A operação erra? Reciclagem. As pessoas parecem desmotivadas? Palestra sobre protagonismo. É uma resposta confortável. Tem fornecedor, cronograma, certificado, lista de presença e, ao final, uma pesquisa de satisfação.
E talvez seja exatamente aí que esteja o problema. Durante mais de duas décadas trabalhando com educação, aprendi que muitas solicitações de treinamento chegam com a solução antes mesmo de alguém investigar a pergunta. “Precisamos de um curso.” Minha vontade, cada vez mais, é responder: o que está acontecendo aqui?
Porque baixo desempenho pode significar que alguém não sabe fazer. Mas também pode significar que sabe e não consegue praticar, que o processo atrapalha, que falta recurso, que ninguém deixou claro o esperado ou que existe uma relação de trabalho deteriorada. Na minha palestra na ACI, essa distinção apareceu de forma simples: entre várias causas possíveis para o desempenho abaixo do esperado, apenas uma é necessariamente resolvida com treinamento.
Minha aproximação com a psicanálise tornou essa questão ainda mais interessante. Aprendemos a escutar não apenas aquilo que é dito, mas aquilo que insiste por trás do que é dito. Talvez isso também seja necessário dentro das empresas. Às vezes, “precisamos desenvolver a liderança” significa que existe um líder sobre quem ninguém consegue conversar. “Precisamos engajar as pessoas” pode significar que uma mudança foi mal conduzida. “Precisamos treinar novamente” pode esconder um processo que todos sabem que não funciona.
O curso, então, deixa de ser instrumento de desenvolvimento e passa a desempenhar outra função: evitar a conversa mais difícil.
A inteligência artificial torna esse cenário ainda mais curioso. Nunca foi tão fácil produzir conhecimento. Em poucos minutos podemos criar conteúdos, trilhas, vídeos, tutoriais e avaliações. Talvez justamente por isso o grande diferencial das organizações daqui para frente não esteja em produzir mais respostas, mas em formular perguntas melhores.
Antes de aprovar o próximo treinamento, experimente uma: se amanhã todos soubessem perfeitamente fazer aquilo que estamos ensinando, nosso problema desapareceria?
Se a resposta for não, talvez seja hora de parar de treinar por alguns minutos.
E começar a escutar.
Rodrigo Ourives
Educador, autor e fundador da BalintEdu. Atua com educação corporativa, desenvolvimento humano e comportamento nas organizações.